Milícias do Rio de Janeiro iniciam parceria com o tráfico de drogas

Milícias do Rio de Janeiro iniciam parceria com o tráfico de drogas

Inscreva-se na TV Coiote!

-----------------------------------------------------------
O inimigo agora é outro: as milícias. Veja como essa máfia nascida dentro da polícia e com tentáculos na política se tornou um Estado paralelo, e perverso, na periferia do Rio.

Texto Vinicius Cherobino

Instalado na Secretaria de Segurança Pública, afundado em problemas familiares e com uma vontade maluca de trabalhar, o coronel Nascimento faz o que todo caveira gostaria de fazer no seu lugar: aparelhar o Bope para expulsar os vagabundos da favela.

O serviço de Nascimento termina. Aparentemente corre tudo bem, e aí uma outra questão se impõe: quem vai mandar em um lugar ao qual o Estado ainda não chegou? No filme, não funcionou. Na realidade, também não.

No dia a dia do Rio, as milícias nasceram como um pelotão formado por policiais da ativa, ex-policiais civis e militares, agentes penitenciários e bombeiros. Elas agiram rápido. Dados do Núcleo de Pesquisa das Violências (Nupevi) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) apontam que 41,5% das 965 favelas no Rio estavam dominadas por milícias em 2008, contra 11,9% em 2005. No começo, elas foram saudadas como a volta da ordem às comunidades de onde nem o Bope tinha conseguido expulsar os traficantes. Os líderes das milícias ganharam prestígio. Não teve político de partido grande que não tenha aparecido, em algum momento, ao lado de algum miliciano.

Como as aparências enganam (e, para sua sorte, o Coronel Nascimento descobriu isso logo), o objetivo das milícias não é garantir a tranquilidade da comunidade. É o mesmo dos traficantes: ter lucro e poder. Para isso, os grupos paramilitares têm uma oferta muito especial para estabelecimentos comerciais ou para os próprios moradores. Chamada de “taxa de segurança”, a oferta é apresentada de duas maneiras: a primeira, via pura e simples extorsão, quando os milicianos ameaçam diretamente os moradores para conseguir o pagamento. A segunda é muito mais sutil e tenta coagir os moradores a pagar a cobrança via ameaças veladas. Imagine a cena: um grupo fortemente armado bate na porta da sua casa (ou loja), oferece segurança por uma taxa mensal e, a todo momento, lembra que são policiais, que estão matando os bandidos, “botando ordem”. Você diria não para eles? Os moradores da zona oeste do Rio também não. De maneira semelhante ao popular flanelinha que “guarda” os carros estacionados nas ruas, a milícia oferece proeção contra os danos que ela mesma pode causar.

E a proteção é apenas parte do esquema. Aos poucos, as milícias passaram a cobrar comissões sobre a venda de imóveis e terrenos negociados pelos moradores, a dominar o transporte irregular das mototáxis e vans, a controlar a instalação de TV a cabo pirata (o “gato net”) e de máquinas caça-níqueis. Outro ramo lucrativo é o monopólio da venda de itens como cocos verdes, botijões de gás e crédito pessoal (com a vantagem do baixo risco de inadimplência – atraso significa morte). Ao revender os produtos e serviços superfaturados, as milícias viram os seus lucros, armas e poder se multiplicar.

Os crimes praticados por essa máfia não se restringem a esse leque. Como os traficantes, os milicianos espancam, torturam e matam pessoas que tentam resistir. Os ataques não acontecem apenas em locais afastados. Há relatos de crimes de milicianos em áreas com muitas pessoas, durante o dia e sem preocupação nenhuma em esconder a sua identidade. Afinal, a matança faz parte do trabalho de “proteger” a comunidade. Exatamente como no filme.

Aliás, se alguém notar algumas semelhanças com a máfia italiana, não será coincidência. A atuação das milícias não se restringe ao tiroteio. É fácil encontrar milicianos envolvidos em atividades legais, com o intuito de lavar dinheiro. E, o que é mais preocupante, envolvidos com política. O primeiro passo foi o chamado curral eleitoral – obrigar os eleitores das comunidades a votar nos candidatos dos milicianos e a proibir políticos rivais de fazer campanha na região.

------------------------------------
Links: 
http://super.abril.com.br/comportamento/as-milicias-de-verdade/
http://tab.uol.com.br/milicias/
https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1CjpZqGvAV7WfAcPsjRvjoEzR10Y&hl=pt_BR
http://www.nepp-dh.ufrj.br/relatorio_milicia.pdf